Criado em 04 Junho 2019

Desde o nascimento das gêmeas Ana Sophia e Maria Clara, há dois anos, a família Ferreira Lisboa, de Londrina, tem vivenciado momentos de muita expectativa. Um em especial aconteceu na manhã de segunda-feira (3), quando elas escutaram pela primeira vez. “A gente nem dormiu direito. Estávamos contando os dias para isso”, diz o pai Lúcio Lisboa Alves, com Ana Sophia no colo. Ela foi a primeira a ter o processador ativado.

A fonoaudióloga Ana Paula Akaishi Santana explicou aos pais todo o funcionamento do implante coclear e também estava na expectativa de ver a resposta das crianças diante dos estímulos enviados por um sistema no computador.  Ana Sophia teve uma reação bastante comum entre as crianças: ela chorou ao ouvir os primeiros sons. Já Maria Clara gostou da experiência de imediato, sorrindo. Mas foi o sorriso largo dos pais que definiu bem o valor deste momento.

Eles estavam felizes em chamá-las pelo nome e serem atendidos com um olhar, uma virada de pescoço. A emoção é tamanha que a alegria se transforma em uma salva de palmas na sala da fonoaudióloga. "Esperamos que elas se desenvolvam bem. O implante veio para somar. O ouvir é muito importante, não só pelo aspecto da comunicação, mas também para o caminhar porque também tem relação com o equilíbrio”, diz a mãe Thayla Ferreira Lisboa.

Em poucos minutos, a pequena Ana Sophia já se divertia ao som do copo de plástico e Maria Clara estava animada em jogar todos os brinquedos no chão. “É como se elas estivessem nascendo de novo hoje. Vamos ter que trabalhar todas as palavras, os sons. Minha maior expectativa é para a primeira palavra, que acredito que será papai”, brinca Alves.

BÊ-A-BÁ

A fonoaudióloga explica que a partir de agora as gêmeas deverão ser estimuladas o tempo todo, em casa e nas sessões de reabilitação. “Elas terão que aprender o que estão escutando, desde um barulho de porta, a voz feminina da mãe, a voz masculina do pai, o som que o gato faz. Tudo isso vai ser gradativo e por meio de brincadeiras e imagens. Nosso objetivo agora é fazer que com elas desenvolvam a fala”, aponta.

Elas também farão visitas frequentes com a especialista para ajustes do processador. Aos poucos, o volume do acessório vai aumentando até que elas estejam totalmente acostumadas com os sons. No primeiro momento, elas estão escutando tudo em um volume bem baixo.

De acordo com Santana, o aprendizado da fala pode acontecer até os sete anos de idade, aproximadamente. “É um processo cognitivo. Se eu passo dessa idade, eu já não tenho mais a chance de fazer essa criança falar. Quanto mais tempo eu demoro para colocar esse implante, mais tempo eu perdi de estímulo para ensiná-la a falar”.

INDICAÇÃO

A otorrinolaringologista Marcela S. Cordeiro, que participou da cirurgia das gêmeas, explica que o implante coclear é benéfico tanto para crianças quanto adultos e que a indicação principal é para casos de perda auditiva severa, bilateral e quando não houve sucesso com um aparelho auditivo convencional. “Quando a criança nasce com perda auditiva, o ideal é que o implante seja colocado até os dois anos de idade. Por volta do primeiro ano, se o diagnóstico já foi fechado, a gente já começa a pensar em implantar”, afirma.

No caso de Ana Sophia e Maria Clara, a perda da audição foi causada pela prematuridade extrema. Elas nasceram com 25 semanas e tiveram que permanecer internadas por meses. “Fizemos o teste da orelhinha que apontou uma alteração. Repetimos depois de alguns dias, fizemos exames mais específicos e fomos encaminhados para uma clínica. Elas foram acompanhadas durante meses porque existia a possibilidade da perda auditiva ter relação com a imaturidade das conexões nervosas e, por isso, aguardamos até os dois anos para colocar os implantes”, conta a mãe.

O IMPLANTE

A cirurgia para a colocação do implante consiste basicamente em um corte atrás da orelha. O implante é composto por 22 eletrodos e é inserido dentro da cóclea para substituir as células ciliadas que não estão funcionando. Dessa forma, o som captado pelo processador (componente externo) passa direto pela parte danificada do ouvido estimulando o nervo auditivo. Esse componente fica acoplado no crânio do paciente atraído pelo implante por magnetismo.

“O processador externo vai captar o som e transformá-lo em informação para dentro desse eletrodo que está na cóclea”, resume a médica. A ideia é que o implante dure a vida toda, sem necessidade de troca. Para que o paciente possa ter contato com a água, existe um suporte de proteção para a parte externa.

A ativação do processador só ocorre um mês após a colocação do implante. Nesse momento, a fonoaudióloga verifica a reação do paciente, se os estímulos sonoros não estão gerando incômodo a ele e se não há choro excessivo.